Em 2 de agosto de 2026, teve início mais uma fase importante da Lei de IA da UE. No entanto, isso não significa que todos os requisitos para sistemas de alto risco se aplicarão a partir dessa data. Entre outras coisas, foram implementadas disposições relativas à transparência de certos sistemas e conteúdos gerados por IA, e a Autoridade de IA da UE e as autoridades nacionais relevantes receberam poderes mais amplos de supervisão e fiscalização. Os requisitos completos para alguns sistemas de alto risco serão aplicados posteriormente.
No entanto, o capital começou a considerar o risco regulatório muito antes. Um estudo do appliedAI Institute, realizado com 113 startups europeias que desenvolvem soluções de IA e 15 fundos de capital de risco, constatou que entre 33% e 50% dos sistemas analisados poderiam, segundo os entrevistados e os autores do relatório, ser classificados como de alto risco. Esse percentual foi significativamente maior do que os 5% a 15% estimados em avaliações de impacto regulatório anteriores.
Esses resultados devem ser interpretados com cautela, no entanto. Eles não refletem a classificação real realizada pelas autoridades de supervisão nem a saída efetiva de capital após a entrada em vigor das regulamentações. Refletem principalmente as expectativas de startups e investidores em relação aos novos requisitos legais. O estudo abrangeu apenas uma parte do mercado europeu, e o nível de conhecimento dos respondentes sobre os detalhes da Lei de Informática Aplicada pode ter variado.
O estudo, no entanto, aponta numa direção clara: os fundos de capital de risco previram uma queda na atratividade de investimento de startups que desenvolvem sistemas de alto risco. A maioria dos investidores consultados esperava uma diminuição na probabilidade de investimento e na avaliação dessas empresas. Para soluções de baixo risco, as avaliações foram muito mais estáveis, e alguns fundos chegaram a prever um ligeiro aumento na sua atratividade.
Não se trata apenas de uma questão de conformidade formal. Durante o processo de due diligence, os investidores analisam não só o produto e seu potencial de vendas, mas também os custos de conformidade regulatória, o risco de atraso na entrada no mercado, o potencial de escalabilidade e a possível responsabilidade da empresa. Para o fundador de uma startup de IA, determinar se uma solução está sujeita a regulamentações de alto risco pode, portanto, ter implicações diretas na avaliação e nas condições de financiamento.
Os sistemas de alto risco podem incluir principalmente soluções utilizadas em áreas como recrutamento e gestão de funcionários, educação, acesso a serviços básicos, avaliação de crédito, biometria, infraestrutura crítica, aplicação da lei, migração e sistema judiciário.
No entanto, o simples uso de IA para traçar perfis de comportamento do cliente ou aumentar as vendas não classifica automaticamente um sistema como de alto risco. Cada caso deve ser avaliado com base no uso pretendido do sistema, em sua finalidade e em seu impacto sobre os direitos e o bem-estar dos indivíduos.
Para fornecedores de sistemas de alto risco, a regulamentação pode acarretar obrigações adicionais relacionadas à gestão de riscos, qualidade de dados, documentação técnica, manutenção de registros, supervisão humana, segurança cibernética, avaliação de conformidade e monitoramento pós-comercialização, entre outros. Contudo, o escopo da responsabilidade depende da função da entidade em questão – diferentes obrigações podem se aplicar ao fornecedor do sistema e outras à empresa que apenas o opera.
A forma como as penalidades são apresentadas também requer ajustes. A penalidade máxima de € 35 milhões ou 7% do faturamento anual global não se aplica a todas as violações da Lei de Inteligência Artificial. As penalidades mais elevadas destinam-se principalmente a práticas proibidas. Limites de penalidade mais baixos podem ser aplicados ao descumprimento de outras obrigações. Para pequenas e médias empresas, o valor da penalidade também deve levar em consideração o princípio da proporcionalidade.
A dimensão do potencial impacto explica por que algumas startups participantes do estudo declararam estar considerando transferir suas operações para fora da União Europeia ou descontinuar o desenvolvimento de soluções de IA. No entanto, essas foram declarações referentes a possíveis decisões, e não casos confirmados de transferência ou abandono de investimentos.
Por outro lado, a Lei de IA pode fortalecer a posição das empresas que preparam sistemas e documentação de gestão de riscos com antecedência suficiente. A comprovação de conformidade com as regulamentações pode reduzir a incerteza durante a due diligence, facilitar as negociações com grandes clientes e aumentar a credibilidade em setores regulamentados e em processos públicos.
Isso não significa, porém, que a conformidade garanta automaticamente o financiamento. Em vez disso, é um dos elementos que os investidores consideram, juntamente com a qualidade da tecnologia, as competências da equipe, o modelo de negócios e a capacidade de expansão da empresa.
Vale a pena analisar a Lei de Inteligência Artificial de uma perspectiva mais ampla do que apenas sob a ótica da burocracia. Para algumas startups, a regulamentação significa aumento de custos e um processo de lançamento de produto mais longo. Para outras, pode se tornar uma barreira de entrada, protegendo-as de concorrentes menos preparados.
Do ponto de vista do investimento, o fator mais importante continua sendo o cálculo do retorno esperado em relação aos riscos regulatórios, tecnológicos e de negócios. Isso influenciará, em última análise, a avaliação das empresas e as estratégias de alocação de capital.






